As 4 técnicas básicas

Meu avô Bruno me ensinou, e pratico desde sempre, as 4 técnicas básicas que facilitam todas as decisões do contato social:

  1. sempre estar disposto a fazer o dia de alguém
  2. nunca ter medo de ser o primeiro a cumprimentar ou aplaudir, e
  3. perceber quando não deve contar tudo o que sabe.

A linha curta demais, e o anzol grande demais

Quando eu tinha 12 anos o meu avô me contou a história do colega dele que ia todas as tardes, com uma linha curta e um anzol grande demais, pescar no trapiche ao lado do mercado público, em São Francisco do Sul.

O guri sempre voltava de mãos vazias, e todo mundo ria dele por perder tempo assim.

Mas um dia, depois de muito persistir, esse colega pescou lá mesmo, com a linha curta e o anzol grande demais, um peixe de 6kg (um sargo, se não me engano).

E nesse dia ele fez uma peixada pra todos os amigos, inclusive os que riam dele, e todo mundo comeu e se divertiu. E a partir daí ele nunca mais pescou naquele lugar.

A cada dia que eu lembro dessa história é por um motivo diferente, e por uma parte diferente (porque ele não desistiu quando riram, porque depois nunca mais pescou lá, porque fez a peixada até pros amigos que riram, porque todo mundo acabou se divertindo junto, etc.) mas hoje eu lembrei dela 3x, e resolvi compartilhar com vocês.

O que podemos aprender com essa história?

Lüderitz (na Namíbia) era o ponto de partida ideal para a expedição do Amyr Klink atravessando o Atlântico a remo, em 1984. Mas ele não encontrava uma carta náutica de lá em lugar algum, o que complicava o plano.

Até que um dia, numa loja de antiguidades, tropeçou num abajur, e percebeu que o tecido dele era... uma carta náutica de Lüderitz.

Ele comprou o abajur, reproduziu a carta, atualizou com dados naúticos recentes sobre o entorno, e foi o suficiente pra expedição partir de lá, com sucesso.

O que podemos aprender com essa história? Exato: se não encontrar no Google, é antiguidade! Ou algo assim.

Duas lições pelo preço de uma

Quando eu era um jovem programador em Joinville, aprendi na prática muitos conceitos que mais tarde conheci formalmente estudando Administração, incluindo o risco de olhar mais para o indicador do que para a realidade sendo medida.

Um dos meus chefes na época tinha um cunhado garotão, chamado Gus, que vivia em função de um Fusca que era o seu xodó. Certo dia o Gus trocou os pneus do Fusca por modelos esportivos, de diâmetro menor, e veio espantado contar como o carro agora ~corria~ muito mais, e que em trechos urbanos em que antes ele passava a 70 km/h agora ele passava a mais de 80 km/h, mesmo com trânsito.

O chefe olhou de lado para o Gus, chamou o estagiário (eu!), e disse apenas: explica pra ele.

Eu, que não era ligado em carros mas tinha estado acordado na aula sobre a relação entre raio e circunferência, expliquei pro Gus: o velocímetro não mede a distância real, mede o número de voltas da roda. Com pneus menores, cada volta corresponde a uma distância menor, mas o velocímetro não sabe. Assim, para percorrer uma mesma distância em um mesmo tempo (que o trânsito e o motor permitem), a roda dará mais voltas, e o velocímetro indicará uma velocidade (incorretamente) maior. Mudar as rodas interfere na velocidade sim, mas o número apontado pela agulha do velocímetro ajustado para a roda original não serve para indicar diretamente essa mudança.

O chefe disse: "Entendeu, Gus?", e o Gus respondeu: então me vê aí um trocado pra eu ir lá ajustar esse velocímetro.

E o estagiário aprendeu pelo menos 2 lições de Administração.

Não queremos que ele pare

Aqui em casa reside o relógio de parede que já foi da minha mãe e do meu avô, e antes foi do tio dele, que o decorou com uns discretos entalhes em madeira. Ele bate as horas, e sinaliza também as meias-horas.

Quando ele era do meu avô, era necessário dar corda nele a cada 2 semanas. Na gestão da minha mãe, era de 10 em 10 dias.

Aqui em casa era todo sábado e, desde a semana retrasada, isso não é mais suficiente: agora a corda dura só 6 dias.

Passarei a dar corda 2x por semana, porque não queremos que esse relógio pare.

Não fale demais: cuidado com o efeito Osborne

Todo empreendedor de tecnologia precisa conhecer a história de Adam Osborne, pioneiro da computação portátil.

Enfrentando concorrentes como as gigantes IBM e HP, o seu "pequeno" Osborne 1 chegou a vender na casa de dezenas de milhares por mês.

Mas, nas brigas de torcida do mercado de TI que apontavam desvantagens do seu produto, ele ficou com o ego machucado e começou a contar vantagem e a dar detalhes de 2 modelos ainda melhores que estavam em desenvolvimento.

Resultado: o público resolveu esperar por esses, e parou de comprar o Osborne 1. O dinheiro parou de entrar, os concorrentes tiveram tempo pra se organizar, Adam Osborne faliu sem chegar a conseguir fazer sucesso com os outros 2 modelos, e hoje é lembrado mais por falar demais do que pelo seu produto pioneiro.

Dificultando as traições da impressora

Impressora é um bicho traiçoeiro, e todos sabemos que é a elas que se refere o nome da banda Rage Against The Machine.

Mas quem usa agenda e tem uma impressora jato de tinta que não é muito usada faz bem se agendar um compromisso semanal de imprimir uma página de qualquer coisa, que irá direto pra reciclagem.

Com isso o cartucho não resseca, e você (com sorte) descobrirá as traições dela (e dos cabos, wifi, etc.) num momento em que não estará compressa de imprimir.

Acabei de imprimir a folha desta semana.

Transições de teclas nos anos 90

Eu acompanhei 2 transições de teclas.

Em ~1995 começou a ser popular divulgar endereço de e-mail1, e muita gente não sabia o que era a @, nem onde ficava, como era o nome, e pra que servia.

Logo depois veio a popularização da web, e aí toda uma geração de alfabetizados no DOS precisou aprender q a "barra do computador" era a / e não a \ (que pra eles jamais foi contrabarra).

Pra completar, tinha os vindos da datilografia sem passar pelo DOS, que viam barra como sendo o espaço.

Bons tempos.

 
  1.  Era chique mencionar um e-mail nos comerciais de produtos, mesmo a maioria da população ainda não tendo acesso ou total compreensão de como usar!

Como o socialismo utópico fez a minha bisavó caiçara ter sobrenome francês

Uma colônia francesa em plena Santa Catarina, criada já no século 19 para tornar realidade o socialismo utópico, com investimento direto do império do Brasil e apoio de um coronel local interessado em ter uma serraria a vapor em suas terras: o Falanstério do Saí é a razão de a minha bisavó materna ter sobrenome francês.

Pouca gente ouviu falar no Falanstério do Saí, e não faltam razões para isso: a colônia socialista para a qual se inscreveram 2.000 europeus, e só mil foram selecionados, era uma grande picaretagem internacional – possivelmente bem intencionada, como foram várias das mais de 30 associações fourieristas estabelecidas naquele período nas Américas.

grupo de pessoas com trajes urbanos observa, do alto da colina, uma povoação de várias quadras com edificações, próximo a um rio com uma grande ponte.Litografia de Arnoult (1847) representa como seria o falanstério dos sonhos

A ideia de demonstrar a possibilidade de uma vida mais próspera e mais realizada, por meio das ideias de uma vertente do socialismo conhecida como utópica, chegou a trazer um primeiro conjunto de 100 europeus ao Brasil.

Eles acreditaram no que dizia o contrato entre o organizador da iniciativa e o Ministério dos Negócios do Império, assinado em 11 de outubro de 1841, mas ao longo do caminho, conforme iam descobrindo que muito do que foi prometido quanto a infraestrutura e quanto à organização do empreendimento eram meras intenções ou fantasias, vários foram desistindo.

Dos 100 que chegaram ao Brasil, 45 desistiram já na escala no Rio de Janeiro, antes do trecho que os traria a São Francisco do Sul, onde funcionaria o Falanstério.

Um conjunto de 55 engenheiros, marceneiros, modistas e outros profissionais mantiveram a fé (ou credulidade), e embarcaram no trecho que os trouxe do Rio a Santa Catarina. Ao desembarcarem no porto catarinense, entre 5 e 8 de janeiro de 1842, ao invés de uma utopia, eles encontraram o grande desapontamento de suas vidas: as terras da “colônia” eram uma mera demarcação na floresta tropical, ainda por desbravar.

Homem inspeciona ruína de paredes altas e grossas, tomada pela vegetação
Foto tirada em maio de 2015 mostra ruína de casa que, segundo o saber local, abrigou 3 famílias que atuaram no período do Falanstério, na Península do Saí.

Vindos da França urbanizada e industrializada, encontraram um local em que era completamente impossível desempenhar seus ofícios especializados, e onde teriam que se adaptar aos serviços rudimentares e totalmente estranhos as sua habilidades, necessários a converter um trecho de floresta em área apta a ser habitada e prover o que fosse necessário para seu sustento.

Ao saber disso, outra parte do grupo desistiu, preferindo se instalar na região do porto de São Francisco do Sul, já urbanizada – e estes retiveram alguns bens e utensílios trazidos para a colônia, tornando ainda mais difícil a possibilidade de sucesso dos demais.

Eles tentaram mesmo assim, bravamente até. Mas já no ano seguinte, em agosto de 1843, o organizador da colônia, a pretexto de ir buscar recursos, foi ao Rio de Janeiro e não voltou mais – preferindo passar a atuar como homeopata na capital do império, até ser convidado a se retirar do país por conta de suas indiscrições, e se mudar para o Egito.

Um relatório feito meses após a deserção do fundador aponta que só sobravam 17 pessoas no Falanstério do Saí (e um pouco mais que isso numa dissidência em local próximo), sem chances de recuperação de investimentos – e assim, em 1844, o Império considera encerrada a iniciativa.

Com o fim da colônia e do (magro) incentivo financeiro que os participantes recebiam, eles se dispersaram, tendo alguns se incorporado total ou parcialmente à população rural da região, outros à população urbana, outros ainda recorrendo à Sociedade de Beneficência Francesa em busca de ajuda para se relocar ou mesmo para retornar ao país de origem.

Vários dos que ficaram em SC ou no Rio incorporaram à economia local – dentro dos limites que a região comportava – os conhecimentos técnicos e profissionais que traziam do continente que deixaram para trás.

Na maior parte dos casos, os sobrenomes franceses em lápides nos cemitérios da região são o único testemunho dessa permanência – mas alguns constituíram família e se incorporaram longamente à história local.

Não foi o caso – ou ao menos não por muito tempo – do pai da minha bisavó, a Vovó Benta, típica brasileira litorânea da região em que nasceu. O pai dela, integrante de uma família abastada hoje instalada na Suiça, conseguiu obter recursos e retornou ao seu berço original, deixando por aqui apenas a linhagem que constituiu com a população local.

Seu sobrenome – que, não por coincidência, é o mesmo de uma das mais tradicionais marcas de chocolate suíço – não foi passado adiante além da segunda geração – ou seja, a geração da minha avó materna não o passou adiante, embora tenha chegado a fazer contato (por correspondência) com o ramo europeu da família.

E foi assim que o socialismo utópico de Fourier teve ao menos um fruto importante para mim: a minha própria existência!

Leia também:

  • O homem do baú - minhas memórias sobre a chegada da família do meu bisavô materno – que não fugiu de volta pra Europa e, pelo contrário, trouxe o restante da família de lá pra cá.
  • Utopia tropical - “Como a tentativa de criar um falanstério em terras brasileiras se transformou num espetáculo tragicômico”
  • Falanstério do Saí na Wikipédia.

O homem do baú

Como a implantação da eletricidade em um porto do sul do Brasil às vésperas da Primeira Guerra Mundial contribuiu para a formação da família e para guardar de forma organizada os brinquedos da minha infância.

Em 1914, o pai do meu avô veio da Europa para operar a primeira usina de energia elétrica de São Francisco do Sul, uma cidade portuária no litoral norte de Santa Catarina.

Situada no número 156 da então Rua da Liberdade (hoje Rua Marechal Deodoro), a usina posteriormente construída por ele em 1920 – como sócio fundador da Oliveira Ehrhardt & Cia. – tinha o objetivo de fornecer eletricidade para a cidade toda, e era uma continuidade da iniciativa de 1906 da Companhia Hoepcke, uma empresa florianopolitana de navegação, a princípio para prover eletricidade para suas próprias instalações junto ao porto de São Francisco do Sul.

A revolução da eletrificação interessou ao município, que ofereceu incentivos para o serviço ser prestado à população como um todo. Assim, em 1914 foi organizada a Empresa de Eletricidade Hoepcke, e, para montar a usina, foi contratado o engenheiro eletricista Frederico Ehrhardt, que acompanhou a instalação a partir da Europa, e mais tarde veio a se instalar em São Francisco do Sul para operá-la.

Foto em preto e branco de prédio e trapiches, com algumas pessoas em traje social, perfiladas, tirada a partir da Baía da BabitongaInstalações da Companhia Hoepcke em São Francisco do Sul, no início do século XX

Essa usina inicial de 1914 funcionava no prédio que desde 1992 abriga o Museu Nacional do Mar, nas então instalações da Companhia Hoepcke em frente (no sentido náutico) ao atual Porto de São Francisco do Sul. Na época, entretanto, a própria Companhia tinha trapiches junto a esse prédio, onde as suas embarcações atracavam para o embarque e desembarque de passageiros, bem como as operações de carga e descarga.

A movimentação internacional desse engenheiro importado da Europa pelos Hoepcke é especialmente importante para mim, porque foi assim que ele – meu bisavô – veio a conhecer a minha bisavó – uma jovem residente de São Francisco do Sul – para, em algum momento ao longo dos 3 anos seguintes, casarem e, em 1918, darem origem ao meu avô materno.

E o nascimento do meu avô, nesse caso, também é parte do crescimento populacional que no ano seguinte (1919), foi reconhecido como uma das causas do aumento do consumo de energia e da demanda pela iluminação elétrica. Os geradores da Hoepcke tinham chegado ao seu limite, e a empresa – cujo foco era a logística de cargas e de passageiros – não demonstrou interesse na realização de novos investimentos para ampliar a sua capacidade de geração de energia para a cidade portuária.

A prefeitura via a eletrificação como questão vital para o desenvolvimento e abriu uma concorrência pública para empresas que pudessem ampliar a eletrificação, e foi assim que entrou em cena a Oliveira Ehrhardt & Cia., em que o brasileiro Jayme Ernesto de Oliveira entrou com o capital e o engenheiro alemão Frederico Ehrhardt – que logo ficou conhecido na pequena cidade como Frederiquinho da Luz – trouxe o conhecimento técnico para ativarem sua usina.

Mas e o baú?

A instalação da usina da Oliveira Ehrhardt, em 1920, foi um sucesso e proveu eletricidade a São Francisco do Sul por décadas, até que as mudanças no mercado e nas políticas energéticas do país levaram à estatização d as atividades de geração e distribuição de energia, quando suas atividades foram absorvidas pela estatal Celesc, que continuou operando em São Francisco do Sul no mesmo prédio da Rua Marechal Deodoro até 1964.

A prosperidade e o sucesso alcançados pelo engenheiro Frederico, entretanto, não alcançavam os ramos da família dele que haviam ficado na Europa. Era o período imediatamente após a Primeira Guerra Mundial, com a Alemanha derrotada e exposta às dificuldades econômicas decorrentes da sua infame aventura bélica fracassada, ampliadas pelas reparações exigidas pelo Tratado de Versalhes.

Já com raízes familiares e econômicas aqui no Novo Mundo, o sucesso do Frederiquinho da Luz oferecia aos seus irmãos e primos que sobreviveram à guerra na Europa a visão de uma alternativa. Assim, com apoio dele, ao longo da década seguinte, todos foram se organizando para vir para cá também.

Vieram em grande quantidade, vários para São Francisco do Sul diretamente, outros fazendo escala por lá a caminho de outras oportunidades no norte de SC e no Paraná e, em alguns casos cujos registros e memória não chegaram a me alcançar, até mesmo em outros países da América. As minhas memórias pessoais só alcançam a lembrança da convivência com a geração do meu avô – suas primas, nascidas no Brasil, instaladas em Joinville e em Rio Negro, no Paraná.

Bruno e Martha, os familiares mais próximos do meu bisavô, vieram num navio a vapor chamado Argentina, em 1924, quando a usina de eletricidade era um sucesso e o meu avô – também Bruno – já tinha completado 6 anos de idade.

A mala coletiva deles e de outros familiares que vieram na mesma viagem está aqui em casa - é esse baú da foto, que veio para a minha guarda quando eu ainda era criança, após passar por múltiplos outros familiares (e várias camadas de verniz):

baú de madeira com reforços em metal, em cor escura, com inscrições na tampa indicando o nome da família, a data de partida (19/6/1924), o destino do navio (Argentina) e o porto de parada (São Francisco do Sul)

Note que permanecem visíveis as marcações do despacho no navio, em 1924. A foto mostra um baú de madeira com reforços em metal, em cor escura, com inscrições na tampa indicando o nome da família, a data de partida (19/6/1924), o nome do navio (Argentina) e o porto de parada (São Francisco do Sul):

PASSAGIER GUT
Familie EHRHARDT Bigge West
Am 19.6.1924
Mit Dampfer ARGENTINA
Nach São Francisko do Sul - Sud Brasilien

Por muitos anos, esse baú serviu para guardar meus brinquedos. Hoje serve para guardar memórias, tanto no sentido físico quanto em outros, bem mais amplos

Leia também: Como o socialismo utópico fez a minha bisavó caiçara ter sobrenome francês