Uma árvore genealógica feita com caneta preta, por 2 séculos, em 4 países

Minha origem familiar é um caldo bem misturado (tive bisavó que nasceu escravizada, bisavó caiçara filha ilegítima de herdeiro suiço, bisavô que nasceu na Alemanha e veio pra cá às vésperas da 1ª Guerra Mundial, bisavô que prestou apoio logístico especializado a quem veio primeiro demarcar as terras onde mais tarde foi fundada Joinville etc.) e a família toda curte a historiografia disso.

Hoje, a pedido da minha irmã do meio, a minha tia compartilhou imagens e uma tradução para o português, feita por ela mesma, das anotações familiares feitas a partir de 1886, com caneta, em letras cursivas semigóticas, nas páginas iniciais de uma bíblia protestante que ela como filha mais velha herdou da geração anterior.


Foto do cabeçalho da primeira página das anotações numa bíblia luterana do século 19. Texto em alemão, escrita cursiva, em tinta preta.
Cabeçalho da primeira página das anotações genealógicas da família, numa bíblia luterana do século 19. Texto em alemão, escrita cursiva, em tinta preta.

É uma árvore genealógica mantida por duas ou 3 gerações de meus familiares, sucessivamente. Conta a história dos nascimentos (e outras efemérides: quem lutou em guerras, quem teve filho fora da nota fiscal etc.) do ramo do meu avô materno, num período de cerca de 70 anos compreendendo séculos XIX e XX, e que começa algumas décadas antes do início das anotações.

Massa demais.

Não são informações novas: esse período deve ter sido tão traumático para eles – que passaram pelos horrores da 1ª Guerra Mundial e uma sequência de migrações (que hoje chamaríamos de fluxo de refugiados) entre regiões que hoje são da Alemanha, Polônia e Romênia antes de virem pras Américas definitivamente em 1924 – que essa memória foi passada pras gerações futuras de várias outras formas também, inclusive com muita riqueza de histórias contadas tomando um café ou um chopp.

Um detalhe interessante é que o meu avô materno deu continuidade a essas anotações, mas aí em um caderno à parte – e esse caderno está aqui em casa, pronto para um dia virar um estudo que quero aprofundar, e que começa no território onde hoje fica a minha cidade natal, Joinville – mas meses antes da chegada oficial dos primeiros europeus para fundar a povoação da colônia.


Uma nota de rodapé, solta, mas interessante: descobrimos hoje que a família da amiga historiadora com quem há mais de ano venho conversando sobre essas minhas intenções, e que com sorte e vento a favor um dia vai ser a minha orientadora nesse projeto, está mencionada nominalmente naqueles registros da bíblia da minha família! E é uma conexão dupla, porque tanto pode ter sido na passagem pela (hoje) Polônia, quanto nas chegadas ao norte de Santa Catarina.