Zen, o imperador, e o caranguejo perfeito

Um dia o imperador acordou sentindo a ânsia de ter a mais perfeita pintura de um caranguejo. Procurou o mais talentoso e renomado artista de toda a Ásia, e lhe ofereceu riqueza, um palacete, servos, e os melhores materiais artísticos, para que ele pintasse esse quadro.

Anos passaram, e nada de notícias do artista. Até que o imperador cansou de esperar: foi até a casa e, já ao entrar, antes mesmo de ver o pintor, notou que todas as telas espalhadas pela casa estavam em branco.

Tomado pela ira, o imperador concluiu – corretamente – que o pintor não tinha feito esboço nenhum, não havia praticado, passou anos sem colocar em prática a ideia para a qual havia sido escolhido.

Nesse momento, entra na sala o artista. Com profundo respeito, reverencia o imperador e, ato contínuo, pega um pincel ao lado da maior das telas e, com um movimento rápido, desenha nela um caranguejo.


Pintura em estilo japonês mostrando 2 caranguejos, em cores preta a vermelha.
Caranguejos. Katsushika Hokusai, 1808. Nanquim e tinta colorida sobre papel.

Naquele fugaz minuto, o artista havia pintado o caranguejo perfeito, reconheceu imediatamente, o embasbacado imperador.

O artista, expressando sua gratidão pelo longo e generoso patrocínio recebido, retribui com uma explicação que iluminou o imperador, mais do que a perfeição da pintura: ele não tinha como pintar antes, pois precisava que o caranguejo existisse nele primeiro, já que a arte é um ato de “não-ação”, e a perfeição só vem onde há lugar para a naturalidade e espontaneidade.

Pelo esforço construímos produtos, mas o sublime demanda outros caminhos.


(eu não lembro onde eu conheci esse conto zen originalmente, mas sei que foi na década de 1980, porque lembro da primeira vez que eu o usei numa situação prática na vida, e foi ainda na adolescência)